Publicado originalmente no Portal Escritor Brasileiro:
Leia na íntegra:
No último Natal recebi familiares e amigos em casa, entre abraços, pratos compartilhados e risadas que pareciam ecoar de outros natais, trocamos alguns presentes como manda o ritual dessas datas. Nada muito grandioso, coisas do cotidiano, na verdade: livros, canetas especiais, cadernos elegantes, flores, ursinhos, mimos que se formam em pequenos gestos embrulhados em papel colorido.
Eu mesmo recebi um presente particularmente delicado: um porta-retratos em formato de casa, com algumas fotos minhas ao lado da minha companheira e de um casal de amigos. Um objeto simples, mas carregado de memória. Algo que não se compra apenas com dinheiro, mas com alguma atenção ao que somos.
Já outros presentes seguiam a linha do previsível: canecas, canetas, pequenos objetos de uso cotidiano, não eram ruins, muito pelo contrário, eram presentes honestos, daqueles que cumprem bem sua função social: lembrar que alguém pensou em você. Achei curioso aquele pequeno contraste entre o objeto carregado de história e os demais presentes mais neutros. Mas o Natal tem pressa, entre sobremesas, conversas atravessadas e a louça que se multiplicava na pia, o pensamento ficou para depois.
Passaram-se algumas semanas e veio o início do novo ano. Com ele, duas festas de aniversário da menina que casou comigo. Públicos diferentes, ambientes diferentes, mas a mesma alegria de reunir pessoas queridas. E, claro, mais uma vez vieram os presentes. E mais uma vez apareceu aquele fenômeno curioso: a maioria deles era absolutamente convencional: cremes, chocolates, flores, objetos decorativos, pequenas lembranças simpáticas. E, aqui e ali, um ou outro presente parecia carregar algo mais específico, quase íntimo.
Não há crítica alguma nisso, veja bem, não me cancelem rs. Presentear é também um gesto atravessado pela pressa do cotidiano, entre compromissos, trabalho e trânsito, escolher algo para alguém muitas vezes se resume a uma visita rápida a uma loja ou a um clique apressado na internet. E tudo bem!
De todo modo, essa pequena repetição começou a chamar minha atenção. Enquanto esse pensamento surgia, eu estava diante de outra tarefa doméstica das celebrações: escolher a trilha sonora do momento. No Natal, procurei uma playlist de vídeos para deixar rodando na televisão, nas festas de aniversário, fui atrás de música. Algo leve, que não sequestrasse a conversa, mas que ajudasse a costurar o ambiente.
E foi aí que o curioso aconteceu.
Bastou abrir a plataforma e começar a navegar um pouco e em poucos segundos, como num passe de página invisível, o algoritmo já me conduzia para playlists muito específicas. Exatamente o tipo de música que parecia caber naquele momento.
Não precisei explicar nada, nenhuma conversa, nenhum contexto, zero justificativas. A música e vídeo simplesmente apareceram e apareceram certas.
Fiquei pensando nisso enquanto as pessoas conversavam pela casa, enquanto alguém ria na cozinha, enquanto outro grupo comentava alguma história antiga na sala, o celular parecia já ter entendido o clima da noite.
E então me ocorreu uma pergunta: Não é assim também no nosso cotidiano? Quantas vezes, numa conversa com amigos ou familiares, precisamos explicar nossos gostos, preferências e manias? Explicar por que gostamos de certos livros, de certos filmes, de certos lugares.
Explicar o que, para nós, parece tão óbvio.
Já nos novos algoritmos da vida digital, parece bastar uma busca, um clique distraído ou até uma conversa próxima ao celular para que o mundo comece a responder. De repente, surgem anúncios daquele tênis que você comentou que precisava comprar, sugestões de músicas que lembram exatamente o que você escutava anos atrás e os famigerados vídeos que parecem ter sido escolhidos por alguém que passou a tarde inteira observando seus hábitos.
E talvez tenham mesmo passado, só que silenciosamente. O meu ponto nesta e na próxima crônica é um só: explanar sobre o que os algoritmos têm e nós raramente temos: Tempo. Tempo para observar, para registrar, para comparar, Tempo para perceber pequenas repetições que nós mesmos não percebemos. E, sobretudo, paciência para aprender nossos hábitos sem nunca precisar perguntar.
Talvez seja por isso que, enquanto ainda estamos explicando a alguém por que gostamos de determinado tipo de música, o aplicativo já preparou uma playlist inteira baseada nesse gosto. “Ele” não sabe quem somos, mas sabe, com uma precisão impressionante, o que costumamos escolher e aqui começa a nascer uma dúvida curiosa: se os algoritmos aprendem observando aquilo que consumimos, será que nossos gostos continuam sendo realmente nossos? Ou começam, pouco a pouco, a ser moldados pelas sugestões que recebemos todos os dias?
Entre o gosto, o algoritmo e aquilo de que realmente precisamos, pode existir uma diferença maior do que parece, mas essa já é outra conversa.
