Publicado originalmente no livro “Sinais do Mundo: Primeiro Concurso Rubem Alves de Literatura Gênero Crônica”, organizado por Marcela Comelato, Maria Amélia Moscom e Severino Antônio. O texto ficou em 11º lugar no Concurso.

Editora: Farol das Letras, Campinas – SP, 2025.
ISBN 978-65-84584-40-2
170 páginas, 16×23 cm

Leia na íntegra:

No trajeto habitual até a padaria, há uma esquina que parece igual a tantas outras: chão rachado, sombras tímidas de árvores retorcidas. De tão repetida, a paisagem vira quase transparência diante dos olhos. Passo, dia após dia, sem realmente vê-la. Até hoje.

Na pressa distraída de sempre, meus olhos foram fisgados por algo improvável: um par de sapatos vermelhos, alinhados com precisão quase cerimonial sobre a calçada esburacada. Não havia ninguém por perto. Nenhuma explicação. Apenas os sapatos, ali, imóveis, desafiando a lógica silenciosa da rua.

Parei. Foi como se o mundo, num gesto de delicadeza, tivesse armado uma armadilha para o meu passo automático. O tempo, que até então corria desenfreado, deu um tranco e estancou, como um CD antigo que emperra numa música. E, parado, notei o que antes era invisível: a velhinha da janela vizinha, com suas plantas balançando ao vento, ajeitando com carinho cada vaso como se regasse o tempo. O cheiro de pão assado que escapava da padaria e atravessava a rua, flertando com os narizes distraídos.

O mundo estava inteiro ali, pulsando nas pequenas coisas que costuram a vida e que eu, até então, vestia sem perceber. A esquina, o sapato, o vento: tudo conspirava para me lembrar de que a pressa nos torna cegos. Quantas vezes passamos pelos milagres cotidianos sem nos darmos conta? Quantas histórias se desenrolam à nossa volta, mudas, à espera de um olhar mais atento para existirem de verdade? Não são os grandes acontecimentos que sustentam nossos dias, mas essas pequenas dobras do tempo que, se bem observadas, brilham como joias na poeira.

O sapato vermelho era um ponto de exclamação no meio da rotina. Não era apenas um objeto esquecido: era uma pergunta aberta, um convite silencioso para atravessar a crosta do óbvio. Quem os deixara ali? Seria uma mulher apressada, trocando os saltos por chinelos? Um artista, deixando para trás uma metáfora? Ou a pressa de quem, às vezes, esquece partes de si pelo caminho?

Fiquei ali mais alguns minutos. E então percebi que, mesmo sem respostas, já estava transformado. A esquina de sempre ganhara camadas. A rua, antes monótona, agora tinha textura, cheiros, histórias escondidas nos vãos da pressa.

Olhei de novo para os sapatos e vi que estavam gastos nas pontas, como se tivessem dançado muitos carnavais na Augusta ou atravessado incontáveis madrugadas pela Vieira de Carvalho. Havia poesia naquela sola gasta. Havia luta. Havia vida. Cada arranhão, cada rachadura no couro era um parágrafo de uma história que eu jamais conheceria — e, ainda assim, sentia que, de algum modo, também era minha.

Segui meu caminho com um sorriso bobo e uma sensação estranha de ter participado de algo raro: a suspensão do tempo ordinário. Comprei o pão, cumprimentei a balconista (que, pasmem, sorriu de volta — será que sempre sorria e eu não via?), e voltei para casa com o coração mais leve, como quem carrega um segredo.


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Everton Viesba

Professor, pesquisador e escritor. Doutorando em Educação (UNICID) e Mestre em Ciências (UNIFESP) com graduação em Gestão Ambiental, Letras e Ciências Biológicas. Atuo como editor, coordenador e fundador de redes e projetos como o Congresso Internacional Movimentos Docentes (CMD), o Colóquio de Educação e Sustentabilidade (COESUS) e o selo editorial V&V Editora. Desenvolvo projetos voltados à educação, formação de professores, sustentabilidade e design. Além da produção acadêmica, também me dedico à literatura e mantenho colaborações em jornais e revistas, integrando ciência, arte e educação.

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