Publicado originalmente em espanhol no livro Micromundos de Javier Dicenzo e colaboradores pela Editorial Rubin, 2026.
A briga começou como tantas outras: pela louça suja, pelo atraso para se levantar, pela rotina pesada que os dois carregavam como quem arrasta correntes invisíveis. Ele falava alto, gesticulava, repetia frases como bordões de um programa mal ensaiado. Ela, cansada, deixava que as palavras o atravessassem sem penetrar, vivia de “aham” até o momento em que algo dentro dela se rompeu.
Ergueu as mãos como se fosse uma apresentadora de televisão e, com uma voz inesperadamente firme, gritou:
— Voltamos já, depois dos comerciais!
O silêncio que se seguiu foi absurdo. Ele riu, nervoso, achando que fosse piada. A tensão parecia dissolvida por aquele improviso cômico. Talvez, pensou, fosse um sinal de reconciliação, como tantas vezes: a ironia como último recurso para apagar incêndios.
Não percebeu, porém, o detalhe essencial: a pausa não era uma metáfora, era despedida. Para ela, a vida tinha se tornado uma transmissão interminável, recheada de ruídos, interrupções e falas repetidas. O amor, antes enredo principal, agora era só vinheta mal editada.
Enquanto ele ria, ela já estava de pé, recolhendo a bolsa esquecida atrás da porta. O gesto era lento, mas definitivo, como se obedecesse a um roteiro antigo, ensaiado em segredo durante meses.
Ele ainda murmurava algo sobre exagero, sobre drama. Não ouviu o barulho da chave girando pela última vez na fechadura.
Na sala, ficou apenas o eco da frase: “Voltamos já…”. O vazio do apartamento sustentava: não haverá retorno.
E foi nesse instante, sozinho, que ele entendeu o intervalo final: não um corte para comerciais, mas o fim da programação.
Lá fora, ela sussurrava para si mesma — Este foi o fim do programa.
