Publicado originalmente no Portal Escritor Brasileiro:

Leia na íntegra:
O sertão não abandona seus nomes. Pode até parecer que sim, quando a estrada fica longa demais, quando as casas fecham suas portas e janelas, quando os alpendres ficam vazios onde antes havia cadeiras e redes, mas nome de lugar não se apaga com ausência. Ele espera.
A Cachoeira dos Nunes é uma dessas terras que não gritam presença, simplesmente permanece. Pouca gente mora ali, hoje. Pouca gente mesmo. O que há de sobra é chão, memória e animal pastando.
Quem passa pelos entraves das estradas, vê bois, vacas, ovelhas, porcos. O rebanho espalhado sem urgência, como se o tempo tivesse aprendido a andar devagar. Ali ninguém apressa bicho. Entre um lado e outro das estradas, se vê cercas, capim ralo, pedras. Se vê ainda uma capela simples, de quem nunca pediu luxo, apenas abrigo, estrutura.
A capela não chama atenção, nem disputa o olhar com a paisagem. Está ali como sempre esteve, marcando a fé e a permanência. Marca o gesto de quem a construiu pensando que talvez não estivesse ali para sempre, mas que alguém estaria.
Foi ali que Clodoaldo Nunes de Almeida fincou o nome. Não como aqueles que fundam impérios, mas como quem nascido no sertão, sabe a importância de se criar raiz firme e profunda. Um nome inteiro, dito com clareza, passado adiante sem enfeite. Nome de homem que virou território, que virou história.
Os filhos cresceram, os netos também. O mundo foi ficando maior que a Cachoeira dos Nunes, e eles foram: um para um canto do Brasil, outro para outro. Alguns atravessaram oceano, outros apenas o estado do Ceará. Mas todos atravessaram levando o mesmo ponto de partida.
É assim que o sertão se espalha. Não por conquista, como dos coronéis, mas por polinização. Cada filha, filho, netas e netos, levou consigo um pouco do nome, da história, do modo de dizer, do jeito de olhar o chão antes de pisar.
A Cachoeira dos Nunes quase não tem mais gente, mas não ficou vazia. Ficou cheia de ausência que sabe de onde veio. Ausência que não rompem, mas se converte em memória. As casas fechadas, algumas destelhadas, não são ruínas. São pausas, guardam em suas paredes a poeira dos passos antigos, o eco de conversas que não acabaram, apenas mudaram de endereço e ganharam o mundo.
O sertão sofrido não se sustenta por bravura heroica, sustenta-se por rotina. Pelas vacas que precisam de água, pelas cercas que precisam de reparo. Pela capela que precisa de cuidado mesmo quando poucas pessoas a contemplem. Quem ficou acorda cedo sem plateia. Abre a porteira que range, conta o rebanho pelo hábito e não pela conta, empurra a água do balde com o pé para não desperdiçar. Não chama isso de resistência. Chama de dia, de rotina. Há beleza ali.
A luz bate diferente na terra seca. Quem ali permanece, o faz por coragem. A coragem de manter o que não dá retorno imediato e de cuidar do que não dá aplauso.
E quem saiu não saiu correndo, não abandonou. Levou consigo o nome Cachoeira dos Nunes, as histórias e as memórias que atravessam sotaques, cidades grandes, ruas asfaltadas, as fronteiras e os oceanos. Há nomes que são pronunciados em lugares onde ninguém sabe onde fica, mas eles continuam sendo ditos por inteiros.
Porque nome não é só de origem, é também endereço, é território. Clodoaldo Nunes de Almeida talvez não imaginasse que seu nome cruzaria fronteiras, mas o sertão sempre soube. O sertão cria gente para o mundo, mas não perde a posse simbólica de quem cria.
O sertão não disputa narrativa, ele as oferece. Há esperança ali, acordar cedo, tirar leite da vaca, recolher os ovos do galinheiro, olhar o céu, calcular a chuva, seguir respirando…
A memória está nas palavras ditas, nas escritas. Mas também residente no modo de viver, nos lugares e como são tratados. No respeito ao espaço e na recusa de transformar tudo em abandono.
A Cachoeira dos Nunes continua inteira, não por estrutura ou sobrevida, mas porque em cada pedaço do Brasil e do mundo há alguém que continua lembrando. Os descendentes podem estar longe, mas sabem dizer de onde vieram. Sabem pronunciar o nome certo. E enquanto o nome for dito, o lugar não cai.
O sertão não exige presença, ensina reconhecimento. Há lugares que não vivem de visita. Vivem de nome dito certo.
