Publicado originalmente no Portal Escritor Brasileiro:
Leia na íntegra:
As manhãs de férias têm um som diferente. Não sei bem se é o barulho que muda, talvez seja a ausência dele que nos ensina a escutar com mais atenção. A rua ainda dorme quando a janela se abre, e o mundo parece caber por inteiro naquele primeiro gole de ar.
O asfalto da rua de frente de casa está limpo de pressa. Não há buzinas, um carro a cada hora. Não há passos apressados, tampouco agendas correndo à frente das pessoas. Apenas a rua, extensa e calma, como se tivesse sido esquecida pelo tempo.
Antes mesmo de sair pelo portão da garagem, já percebo que o cheiro do pão chegou antes que a visão da padaria. Ele sai do forno, passa pelos balcões, invade a calçada, atravessa memórias. É um cheiro que não pergunta nada, apenas avisa. Ainda existe cuidado, ainda existe calor.
A padaria abre cedo, mas não se apressa. O forno trabalha em silêncio cúmplice, e o vapor que escapa da porta parece uma respiração coletiva, lenta, profunda, meditativa. Caminhar até lá é um exercício de desaceleração. Os passos encontram o próprio ritmo, sem disputa. O corpo reaprende a andar sem correr atrás de nada.
As poucas pessoas que surgem no caminho não desviam o olhar. Há tempo para ver, para reconhecer, para cumprimentar. “Bom dia” dito com voz inteira, não com resto de fôlego.
Os cumprimentos são breves, mas verdadeiros. Não servem para manter aparências. Servem para confirmar que estamos ali, presentes, habitando o mesmo pedaço de manhã. Um aceno, um sorriso discreto, um comentário sobre o tempo. Pequenos gestos que sustentam o mundo mais do que discursos longos.
Já na padaria, ninguém parece querer ir embora. O atendente conhece os rostos, chama pelo nome, pergunta sem pressa. O troco vem acompanhado de conversa, não de silêncio constrangido. O único som tradicional é o da máquina de cartão, todo o resto parece novidade, até os estalos da crocância do pão se tornam audíveis.
Incrível! Parece que os nossos sentidos ficam mais apurados quando não há pressa.
O pão quentinho pesa mais nas mãos do que no pacote. Carrega consigo um calor que vai além do forno, soa como promessa simples de um café da manhã sem urgência. Na volta para casa, a rua continua vazia, mas não há nada melancólico ou de abandono, o sentimento é de descanso. A cidade, por algumas horas, parece lembrar que também precisa pausar.
As casas fechadas não causam estranhamento. Elas protegem o silêncio, guardam sonhos estendidos até mais tarde, conversas que ainda não começaram. Um feixe de luz perpassa por uma nuvem e outra. O sol sobe devagar, respeitoso. Se no cotidiano ele arde e faz suar, hoje ele não invade. Apenas ocupa o espaço que sempre foi dele, iluminando fachadas, árvores, calçadas esquecidas.
Sentar-se à mesa com esse pão é indescritível. Não há espaço na tomada de decisão para comê-lo correndo. Parte-se devagar, a crocância ganha os sentidos: se faz ouvir, libera novos aromas e faz o tato refletir sobre a urgência de repetir esses momentos.
Nada parece quebrar o encanto da manhã.
Cada mordida confirma algo que o cotidiano na cidade sempre esconde; a vida não exige pressa. A pressa é que nos convence do contrário.
