Publicado originalmente no Portal Escritor Brasileiro:
A conversa começa leve. A mesa está quase pronta, alguém confere se o arroz ainda precisa de sal, outro pergunta a que horas a carne sai do forno. Até que, inevitavelmente, surge ela. A uva-passa. Pequena, aparentemente inofensiva, mas capaz de transformar a ceia em tribunal. Em poucos segundos, assume o banco dos réus. Acusações severas, defesas passionais. Gente que jura que ela eleva o prato. Outros que afirmam, sem margem para negociação, que estraga tudo o que toca.
É curioso como uma fruta seca consegue catalisar tanta convicção. Ninguém está ali apenas comentando o menu. Todos estão, de algum modo, treinando algo maior. Opinar. Defender. Se posicionar. Marcar território. A cena narrada é um vislumbre de como será o Natal, a uva-passa é o chamariz, mas certamente dezenas de outros assuntos se sentarão à mesa.
Esse mesmo roteiro se repetiu ao longo do ano: na sala de professores, por exemplo, uma conversa sobre calendário escolar rapidamente vira diagnóstico completo da educação brasileira; no grupo de amigos, um comentário casual escorrega para debates sobre política, economia, moral. Na sala de casa, diante da televisão ligada, qualquer notícia vira convite ao comentário imediato. No ônibus, no metrô, basta um atraso, um empurrão, um olhar atravessado para que alguém tenha certeza absoluta sobre o caráter do outro.
Em todos os lugares, o princípio é o mesmo. Conversas cotidianas tendem a nascer acompanhadas de opiniões. Quando não, elas rapidamente assumem o protagonismo. Não falamos sobre o que aconteceu; falamos sobre o que deveria ter acontecido, sobre quem errou, sobre como faríamos melhor.
Tenho pensado muito nisso ao escutar uma amiga que anda exausta do trabalho. Há dias ela repete as mesmas queixas, as mesmas cenas, as mesmas indignações. Eu escuto. Um dia, dois, três. Em algum momento, sinto o impulso de opinar. De sugerir caminhos, talvez organizar soluções. Mas algo me freia. Talvez ela não precise de resposta. Talvez precise apenas de alguém que aguente estar ali sem transformar desabafo em plano estratégico.
Em outra mesa, há aquele que só sabe falar em beber. Beber para comemorar, beber para esquecer, beber porque sim. Tudo vira desculpa. A conversa gira em círculos etílicos. Quem tenta problematizar é acusado de exagero. Quem concorda demais percebe tarde que entrou em outro tipo de desgaste. E lá estamos nós, outra vez, opinando por reflexo.
A maioria das pessoas tem opinião sobre quase tudo. Sempre teve. O que mudou foi a intensidade. A internet potencializou isso. Hoje, opinar é hábito, é treino diário, é quase identidade. As redes nos ensinaram a reagir antes de compreender; a comentar antes de digerir. O silêncio, nesse contexto, soa estranho. Quase ofensivo. E então surge a pergunta que raramente fazemos…
É mesmo necessário opinar sobre isso?
Há uma diferença grande entre debate e convivência. Política, futebol, educação, tudo isso precisa ser discutido. A ideia de que certos temas não se tocam é pobre. Mas também é verdade que nem todo espaço é adequado para embates. Festas de fim de ano, almoços de família, encontros informais raramente oferecem o clima necessário para a complexidade que certos assuntos exigem.
Não opinar, nesses casos, não é omissão. É leitura de contexto. É entender que o vínculo pode ser mais importante que o argumento. Que ganhar uma discussão pode significar perder uma tarde inteira, um afeto, um resto de ano. Muito provavelmente, azedar a ceia mais do que a uva-passa faria. Olha eu aqui, opinando…
Há uma maturidade silenciosa em perceber quando a fala vai esclarecer e quando só vai tensionar. Em reconhecer que nem toda verdade precisa ser dita naquele momento. Em aceitar que a convivência também se constrói a partir de pequenas abdicações. Confesso que, em muitos desses encontros, tenho recorrido a um ensinamento improvável, vindo de uma animação improvável. Os Pinguins de Madagascar resumem com precisão o que às vezes falta a nós: “Sorriam e acenem, rapazes. Sorriam e acenem.”
Não se trata de concordar, trata-se de sobreviver emocionalmente. De escolher batalhas. De entender que há silêncios que não apagam pensamento algum, apenas adiam o confronto para um espaço mais honesto. A uva-passa continua lá, no arroz, mas já não define o clima da noite. As opiniões não desaparecem, apenas deixam de ser armas.
A delicadeza de não opinar é uma forma de cuidado, consigo e com o outro. O mundo não muda porque você se calou diante da uva-passa, da política ou da opinião alheia naquela mesa. Mas talvez a noite possa terminar melhor por causa disso. E, em tempos tão ruidosos, isso já é muito.
