Publicado originalmente no Portal Escritor Brasileiro:

Leia na íntegra:

Novembro chegou como quem abre a porta devagar. Sorrateiro. Não invade, mas também não espera convite. Apenas se instala no canto da sala e observa a nossa pressa, como quem sabe de antemão que ninguém está realmente preparado para ele. Em poucos dias, 20 e tantos se passaram.

Acredito eu, que isto se dá porque novembro é o mês do quase. Quase fim, quase começo, quase promessa. É um intervalo, não uma temporada. É como aquele trecho do filme que ninguém lembra, mas sem o qual nada faria sentido depois.

E talvez por isso carregue um desconforto silencioso, uma urgência que não se justifica, mas que se espalha. As pessoas começam a correr sem saber exatamente para onde, como se houvesse um fiscal do tempo anotando quem conseguiu “fechar o ano” a tempo. Acidentes de trânsito se intensificam, prazos de projetos ficam mais curtos.

No mundo acadêmico, a cena se repete com perfeição quase coreográfica. Estudantes que passam o ano inteiro flertando com o caos decidem, de repente, que serão capazes de aprender em dois dias o que ignoraram em dois semestres. Professores fecham notas, corrigem provas, respondem e-mails que começam com um “desculpe o atraso” que já nem causa mais surpresa em ninguém.

A verdade é que novembro tem cheiro de urgência e café frio. Pilhas de papéis, relatórios esquecidos, plataformas digitais pedindo uploads que parecem zombar da nossa capacidade de organização. E, lá fora, o verão começa a espiar pela fresta das janelas. Ele não entra de fato, mas avisa que está chegando — e novembro, que não é bobo, sabe exatamente o efeito que isso provoca nas pessoas.

Neste mês, todo mundo lembra que possui um corpo. Um corpo que terá de existir em praias, piscinas, fotografias e olhares alheios. E então surge uma corrida apressada e quase cômica em direção ao “projeto verão”, essa fábrica de expectativas que nunca entrega o que promete. As academias lotam. As promessas se multiplicam. As culpas voltam. As pessoas juram que agora vai, porque novembro, coitado, virou o terreno baldio onde todo mundo tenta construir sua autoestima em prazo recorde.

Mas o que novembro sabe, e finge que não diz, é que toda essa pressa esconde outra coisa. Uma espécie de inventário emocional que ninguém admite fazer. A gente olha para o ano como se revisasse um armário bagunçado: achamos metas esquecidas, expectativas mofadas, alegrias que não duraram, dores que duraram mais do que deveriam.

E, nesse processo, tentamos negociar com o tempo. “Ano que vem eu começo cedo.” “No próximo eu faço diferente.” “Agora eu vou.” Discursos reciclados que novembro escuta com a paciência de quem já ouviu isso muitas vezes. Há, nesse mês, um sentimento paradoxal: estamos exaustos, mas tentando mostrar disposição; ansiosos, mas fingindo serenidade; esperançosos, mas com vergonha de admitir que ainda esperamos algo.

E como se não bastasse, ainda surgem as festas. O país inteiro começa a ensaiar ceias, encontros, roupas brancas, discursos de união familiar que ninguém acredita por completo. Novembro assiste a tudo como quem observa os ensaios de uma peça cujo final já conhece.
As miniférias também se anunciam, sempre glorificadas como descanso absoluto. Mas novembro sabe que descanso, de fato, é artigo raro. A promessa existe, a realidade, quase nunca. E, mesmo assim, há uma doçura tímida nesse mês. Talvez porque a gente comece a desacelerar por dentro antes de admitir. Talvez porque, apesar de tudo, ainda exista uma inocência no ato de acreditar que dezembro nos salvará.

Novembro é o mês em que recomeços são rascunhados, não proclamados. Nada grandioso, nada épico. Pequenos gestos que ninguém vê. Guardar o celular mais cedo. Dormir um pouco melhor. Revisar uma ideia antiga. Largar uma expectativa que já pesava demais.

Esses começos discretos passam despercebidos, mas é neles que o ano realmente muda. Não na virada. Não na queima de fogos. Não no calendário que recomeça limpinho. Novembro é um convite à honestidade. A olhar para o que faltou sem transformar isso em derrota. A entender que o quase não é fracasso; é parte natural do caminho.

No fundo, ninguém cumpre tudo o que promete a si mesmo. Ninguém fecha o ano com todas as vírgulas no lugar. A vida não opera com roteiros tão organizados e novembro nos revela isso.


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Everton Viesba

Professor, pesquisador e escritor. Doutorando em Educação (UNICID) e Mestre em Ciências (UNIFESP) com graduação em Gestão Ambiental, Letras e Ciências Biológicas. Atuo como editor, coordenador e fundador de redes e projetos como o Congresso Internacional Movimentos Docentes (CMD), o Colóquio de Educação e Sustentabilidade (COESUS) e o selo editorial V&V Editora. Desenvolvo projetos voltados à educação, formação de professores, sustentabilidade e design. Além da produção acadêmica, também me dedico à literatura e mantenho colaborações em jornais e revistas, integrando ciência, arte e educação.

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