Publicado originalmente no Portal Escritor Brasileiro:
Leia na íntegra:
Capitu deu um “coração” numa foto no grupo da família às 2h47 da madrugada. A imagem, enviada pela prima Mirtes, mostrava uma criança vestida de anjinho segurando um cartaz com a frase: “Família é tudo!”.
Não sei o que Capitu quis dizer com essa curtida. Você sabe?
Não era só o horário, nesse intervalo comum e ingrato entre a insônia e o cansaço, mas o gesto em si, o clique preciso no coração do WhatsApp. Não se tratava de carinho. Capitu era enigmática demais para atos desprovidos de intenção. Bentinho, que acordou com o toque das mensagens, me chamou no privado e disse que não sabia como interpretara aquilo. Indireta, ironia, vingança ou tudo junto?
Amanheceu e ele acordou irritado. Ou melhor, não conseguiu dormir e ficou às claras. Foi ao grupo e releu todas as mensagens do mês. Encontrou três memes sobre gratidão, uma oração de São Miguel Arcanjo, dois vídeos de receitas que prometiam emagrecer comendo bacon e um áudio de três minutos da tia Geni, clamando por mais união entre os primos. Sim, os primos. Aqueles que só aparecem quando morre alguém, quando a herança toma presença ou, muito mais comum, quando precisam de algo.
O grupo se chamava “Família Duarte”, mas poderia ser Garcia, Moreirada, Buscapé, Souza com z, e tantas outras possibilidades. Este contava com 38 membros, mas apenas 7 interagiam. Os demais apenas vigiavam. Bentinho era um deles. Silencioso, observador, anotava mentalmente as alianças implícitas e os silêncios estratégicos.
No mês passado, surgira um novo membro no grupo: Edvaldo Jr. Ninguém soube exatamente quem o adicionou, mas ele entrou com um “bom dia” tímido e três emojis de mãozinha rezando. Capitu respondeu com um “Amém”, seguido de coração azul. Bentinho não esqueceu. Me perturba há semanas sobre isso.
Edvaldo Jr. postou uma foto sua em frente ao túmulo do avô. A legenda dizia: “Saudades eternas do vô Tonico. Exemplo de homem, de caráter e de festança”. O uso da palavra “festança” soou incômodo. Bentinho sentiu, mas nada disse. Capitu, porém, mandou um coração roxo.
A tensão escalava de forma passivo-agressiva, como tudo que realmente importa em família. Era no tom, na escolha do emoji, na hora da curtida. Bentinho, que há muito se dizia alheio àquilo tudo, estava mergulhado até o pescoço na teia digital dos ressentimentos antigos.
A tia Geni, sempre solícita, sugeriu um encontro para o próximo domingo. Churrasco na casa dela. “Cada um leva um prato e sua boa vontade”, escreveu. Capitu respondeu com um “vou tentar”, e José disse “verei com minha agenda”. Ninguém acreditou em nenhum dos dois.
Na madrugada de sábado para domingo, a avó Francisca caiu no banheiro. Fraturou o fêmur. A mensagem da queda veio com um áudio desesperado de Mirtes: “Alguém pode levá-la ao hospital? Meu carro tá na oficina!”. Capitu visualizou, mas não respondeu. Bentinho e José também.
Silêncio. Por vinte minutos, silêncio. Depois, a prima Márcia mandou: “Gente, sério? Ninguém se manifestou ainda?” Bentinho se sentiu acuado. Capitu digitou e apagou várias vezes. Por fim, o primo Darlan, que ninguém via desde 2019, respondeu com um “Já tô indo buscar ela”. O detalhe da foto é que chamou a atenção: painel do carro com a gasolina na reserva. Toda ajuda tem um custo…
O grupo explodiu em agradecimentos. Emojis de coração, mãos em prece e rostinhos chorando de emoção. Bentinho, enciumado, digitou: “Acabei de acordar agora. Se precisar de algo, avisem.” Capitu respondeu com uma figurinha de uma lua cheia, escura, com cara de sapeca. Bentinho passou o dia remoendo a figurinha e me azucrinando as ideias.
No domingo à noite, Capitu postou uma selfie no hospital ao lado da avó. Sorriso, filtro suave, legenda: “Tudo certo por aqui. Ela é forte. #Gratidão”. O rosto da avó parecia meio zonzo pela anestesia, mas ainda assim enternecido. A legenda ardeu em Bentinho como álcool em ferida recente. Não pela hashtag, mas pelo pronome possessivo: “por aqui”. Onde estava ele, então? Do lado de fora?
Na segunda-feira, Edvaldo Jr. repostou a selfie e comentou: “Linda nossa vózinha. Que bom que deu tudo certo. Tamo junto, Capitu ❤️”. Já Darlan, aproveitou a brecha, remarcou a foto do painel do carro e soltou: “e a gasolina, quem vai rachar?”.
Bentinho não respondeu. Mas ficou o dia todo com as respostas presas na garganta, como se palavras doces demais viessem sempre cobertas de chantagem emocional. Foi então que começou a listar mentalmente os parentes que só aparecem nas três situações: enterro, festa e favor.
