O fim não começou com uma briga. Começou com um intervalo, desses que surgem entre uma palavra e outra, quando o amor já se cansou de procurar explicações.
Primeiro veio o silêncio do olhar. Depois, o da casa.
Agora os objetos soam como instrumentos desafinados: o copo esquecido na pia, a toalha dobrada com excesso de cuidado, o travesseiro que insiste em guardar o formato do teu rosto. Tudo vibra em tom menor.
O coração, esse órgão teimoso, não aprendeu a respeitar as pausas. Bate fora de compasso, tenta seguir tocando uma música que já terminou.
Escrever é o que resta quando já não há a quem falar. Transformo o eco em texto, as lembranças em acordes que ninguém vai ouvir. Não, não quero explicar o fim, apenas entender o som que ele faz.
É um som surdo, como o de um piano fechado, uma nota que insiste em vibrar mesmo depois que se solta a tecla.
Talvez todo amor acabe assim: numa ressonância que se recusa a morrer.
Escrevo bilhetes que não envio. Frases que começam com “se” e terminam com
“ainda”. “Se você soubesse o quanto me faltam palavras.” “Se ainda houvesse uma chance de recomeço, eu pediria apenas silêncio.”
Há dias em que o silêncio pesa como chumbo. Outros, em que ele alivia como ar fresco. Tenho aprendido a escutá-lo.
Ele não é ausência, é presença sem barulho. Uma voz daquilo que ficou, falando baixo, pedindo para não ser esquecido. Caminho pela casa como quem atravessa uma partitura.
O piso range, o vento sopra pelas frestas, e descubro que até o vazio tem música. Na mesa, tua xícara continua ali.
Não por apego, por ritmo. Afinal, ela marca o compasso da memória, a pausa entre o que fomos e o que deixamos de ser. Lembro da tua risada cortando o som do mundo. Lembro de como tuas mãos faziam do gesto uma oração.
Agora lembro sem dor. Ou quase. Descobri que o amor não morre quando termina; apenas muda de frequência. Ele se transforma em lembrança, e a lembrança, em melodia. Revisito as manhãs em que o café tinha gosto de futuro.
As tardes em que o tempo nos pertencia e as noites em que o corpo era abrigo.
Não há culpa em lembrar. A culpa, aprendi, está em tentar esquecer à força.
O esquecimento é apenas outra forma de ruído. Demorei a entender que o silêncio não é o fim da música. É o espaço onde ela respira. Hoje não escrevo para te chamar de volta. Escrevo para ouvir a mim mesmo.
As notas que antes te buscavam agora repousam sobre o papel como folhas no outono, desprendidas, mas ainda belas. O que fomos permanece no intervalo entre uma linha e outra.
Na sombra do que ficou por dizer.
E quando fecho o caderno, há paz. Não a paz dos que esqueceram, mas dos que aprenderam a escutar o próprio silêncio.
Talvez o amor seja isso: Uma canção que o tempo ensina a tocar devagar. E quando a música acaba, o silêncio continua — porque o coração ainda ouve o que o corpo desistiu de cantar.
