Ser presente nem sempre é um presente.
Há dias em que o corpo acorda antes da alma. O relógio desperta e, junto dele, a obrigação de funcionar. O café esquenta, o e-mail apita, o lençol ainda morno parece zombar da ideia de descanso. A casa está em silêncio, mas é um tipo de silêncio que pesa, deixa o ar denso — aquele que grita desordem, louça por lavar, poeira que insiste em se acumular. E lá está você, o que sempre resolve, o que segura o fio, o que conserta o que o tempo e os outros quebram.
Ser o que faz tudo cansa. É um cansaço que não se mede em horas dormidas, mas em atenção doada. Gente demais quer um pedaço da sua escuta, um gole da sua presença, um pouco do seu tempo. E você oferece, sempre. Oferece até quando o corpo quer esconder-se num canto, sem nome, sem função. Oferece até quando ninguém pede, porque já aprendeu a ler o que os outros calam.
No entanto, há um tipo de ingratidão que não é ofensa — é esquecimento. Amigos que dizem sentir saudade, mas nunca chegam perto do seu fim de semana. Que lembram de você quando precisam de consolo, mas nunca pensam em dividir um pôr do sol ou uma mesa de bar. Gente que te admira, desde que você continue sendo o lugar seguro deles. Desde que o conforto seja o seu, não o deles. Desde que o esforço continue sendo seu, sempre seu.
A casa — essa extensão do corpo — vai ficando cansada também. A pia se enche, o chão reclama, a cama perde a vontade de arrumar-se. E você, exausto, começa a se perguntar quando foi que se tornou o lar dos outros e deixou de morar em si mesmo. Essas relações sociais são esgotantes!
A verdade é que ninguém percebe o peso de ser a âncora. De ser o abraço que sustenta, o ouvido que nunca descansa, a presença que não falha. Até que um dia você não levanta. Não por preguiça, mas por falta de ar. Falta de espaço. Falta de reciprocidade.
Então, talvez, o que reste seja permitir-se o luxo do não. Não abrir a porta. Não responder na hora. Não sorrir se o corpo não quiser. Talvez seja hora de aprender a ser visita na própria rotina. De sair um pouco da casa, deixar a bagunça respirar sozinha, e descobrir o que há do lado de fora de quem sempre segura o mundo.
Quem vive para estar disponível acaba desaparecendo.
Às vezes, a solidão não vem da ausência dos outros, mas de estar presente demais.
