Publicado originalmente no Portal Escritor Brasileiro:

Leia na íntegra:

Na última vez em que visitei minha amiga Ju, percebi que o elevador já me espiava antes mesmo de fechar suas portas. Não era só a conversa baixa que trocávamos enquanto aguardávamos a subida. Era também aquele brilho incômodo da tela eletrônica que insistia em nos distrair com propagandas de planos de internet, cursos de inglês e cremes milagrosos. A cada mudança de imagem, sentia que nossas palavras ficavam ainda mais invisíveis, engolidas por uma publicidade que não queria ser ignorada. O elevador parecia nos dizer que, ali dentro, a fala sempre seria menor que o ruído programado da máquina.

Esse incômodo se repetiu, de maneira ainda mais intensa, quando fui ao hospital. A espera de sessenta segundos pela sua descida, transformou-se numa eternidade. As pessoas, todas de máscara, mantinham-se em uma espécie de coreografia muda: olhos baixos, celulares nas mãos, respirações curtas. Ninguém ousava encarar ninguém. Era como se o pano cobrindo metade dos rostos fosse também um convite ao desaparecimento. Eu me perguntava: quantos de nós queríamos dizer algo e desistimos? Quantos olhos se evitam porque não sabemos mais sustentar a presença do outro?

Já numa ida à universidade, o silêncio também demonstrou sua forma peculiar. Ali, há um ensaio automático que torna as falas mais artificiais do que a própria ausência delas. Boa tarde às nove da manhã, bom dia às cinco da tarde. Cumprimentos que mais parecem apertar um botão programado do que abrir uma conversa.

Foi nesse percurso entre o apartamento da Ju, o hospital e a universidade que passei a observar com mais cuidado o que o silêncio dos elevadores carrega. Em uma viagem de trabalho, notei duas pessoas entrando no elevador, trocaram olhares rápidos, mexeram no celular, fingiram não se ver. Essa cena se repete como uma liturgia urbana. Quase um pacto: vamos fingir que não existimos por alguns andares. O narrador que há em mim se diverte e se angustia com essa estranheza. Afinal, como pode um espaço tão pequeno reunir tantos corpos e, ao mesmo tempo, produzir tanto vazio?

Há silêncios que protegem. O silêncio das brigas, por exemplo. Ele é duro, mas contém um sentido: guarda palavras que, se ditas, poderiam ferir ainda mais. Há também o silêncio das salas de espera, onde todos, ansiosos, parecem partilhar a mesma impotência diante do tempo que não passa. Esse silêncio é coletivo e, de certo modo, solidário. Mas há também o silêncio dos que não têm mais o que dizer, aquele que habita relações gastas, conversas interrompidas para sempre, e que pesa como uma porta fechada.

O do elevador, no entanto, tem algo de mais desconfortável. Ele não é um silêncio escolhido, tampouco um silêncio necessário. É uma suspensão de nós mesmos. Estamos perto demais para ignorar a existência do outro, mas não próximos o suficiente para reconhecê-lo. Então, calamos. E nesse calar inventamos formas estranhas de ocupação: apertamos repetidamente o botão de um andar já marcado, ajeitamos a alça da mochila, conferimos notificações inexistentes. O corpo precisa justificar o silêncio, como se o vazio exigisse um pretexto para não ser tão constrangedor.

No hospital, lembro de um senhor que entrou já com alguma dificuldade de locomoção. Os demais recuaram um passo, disfarçando o gesto como quem ajeita o pé. Ninguém disse nada. Na universidade, já presenciei professores e alunos no mesmo elevador, e os “bons dias” trocaram de boca como se fossem moedas sem valor. O silêncio ali tinha gosto de formalidade. Na casa da Ju, quando a tela brilhava entre nossas palavras, percebi que o silêncio tinha cor: um azul frio, artificial, que nos obrigava a competir com anúncios. Cada elevador, ao que parece, fabrica sua própria versão de silêncio.

E eu, que sempre fui tentado a falar, a preencher vazios com palavras, percebo que esse silêncio compartilhado pode ter algo de espelho. Ele revela mais sobre nós do que sobre o espaço. O silêncio dos elevadores não é da máquina, mas dos humanos que se evitam. É o silêncio de uma cidade que desaprendeu a sustentar o olhar, que prefere a distração da tela ao risco da conversa, que se protege de gestos simples como um “bom dia” genuíno. No fundo, penso que todo elevador carrega uma pergunta invisível: o que você faria com esse minuto? Poderia olhar para alguém e sorrir, poderia arriscar um comentário banal sobre o tempo, poderia reconhecer que o outro existe. Mas quase sempre preferimos descer ou subir mudos, como se a viagem fosse apenas vertical, não humana. Talvez por isso eu insista em observar esses momentos. Porque os sessenta segundos de silêncio dos elevadores ecoa um barulho ensurdecedor da vida em comunidade que aos poucos deixamos de ter.


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Everton Viesba

Professor, pesquisador e escritor. Doutorando em Educação (UNICID) e Mestre em Ciências (UNIFESP) com graduação em Gestão Ambiental, Letras e Ciências Biológicas. Atuo como editor, coordenador e fundador de redes e projetos como o Congresso Internacional Movimentos Docentes (CMD), o Colóquio de Educação e Sustentabilidade (COESUS) e o selo editorial V&V Editora. Desenvolvo projetos voltados à educação, formação de professores, sustentabilidade e design. Além da produção acadêmica, também me dedico à literatura e mantenho colaborações em jornais e revistas, integrando ciência, arte e educação.

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