Publicado originalmente no Portal Escritor Brasileiro:

Leia na íntegra:

Às vezes, o espaço em branco, o não-dito, pesam mais do que a palavra escrita ou anunciada. Tenho muitos cadernos, cadernetas e blocos de anotações no escritório de casa. Talvez mais da metade limpos, cheios de espaços em branco que insistem em permanecer.

Sempre que olho para o papel, percebo que o silêncio também escreve. Ele se infiltra nas pausas, nas reticências, no respiro do parágrafo. Muitas vezes, nos travessões. O que mais pesa não é a palavra escrita, mas o espaço em branco que insiste em ficar entre elas.

Há quem diga que quem escreve busca sempre a clareza. Eu complemento: também há espaço para quem busca a sombra, o intervalo, aquilo que não pode ser dito, mas que precisa ser sentido.

Há frases que são apenas a superfície. Às vezes, o verdadeiro mergulho está no que não se revela. Uma crônica não se faz apenas de histórias; ela se sustenta das frestas, do olhar que vacila, da memória que hesita antes de se entregar. Quantas vezes ficamos presos àquilo que não dissemos? Uma despedida sem palavra, um abraço interrompido, uma pergunta que não fizemos a tempo. Uma discussão pausada, sem término, tampouco solução.

Tudo isso nos persegue como rascunho inacabado.

E se a crônica for, na verdade, uma tentativa de resgatar esses restos? Penso que cada texto é feito tanto do que oferecemos quanto do que escondemos. O leitor não se engana: percebe o que não coube no enunciado. O silêncio, nesse sentido, vira coautor. Ele sopra no ouvido do leitor: “aqui falta algo, complete você”. É aí que o texto deixa de ser meu e passa a ser nosso. Esse espaço em branco é um convite.

Talvez seja isso que diferencia a crônica de outros gêneros. Ela não precisa fechar com moral da história. Permite-se deixar portas entreabertas. E o leitor, curioso, entra devagar, iluminando cantos que o próprio escritor não enxergava. Não é curioso que a vida também se organize assim?

Carregamos frases interrompidas, afetos suspensos, decisões que nunca chegaram a nascer. Nossa biografia é feita de lacunas, de rascunhos do mundo. A diferença é que, na escrita, podemos tocar essas ausências e transformá-las em presença. O silêncio que me incomodava por tantos anos, virou recurso, matéria-prima, quiçá beleza.

Mas escrever exige coragem. É como caminhar por uma sala escura, confiando que o leitor acenderá uma vela em algum canto. É comum para nós, escritores, nos perguntarmos: e se ninguém acender?

Esta minha crônica inaugural é também um salto no escuro. É meu jeito de dizer: “estou aqui”, mesmo que seja apenas para partilhar incertezas. Talvez seja isso o mais transformador: não precisar fingir completude. Ao contrário, assumir que as falhas, as pausas, os silêncios são parte da textura do texto e da vida.

Lembro de uma frase de Guimarães Rosa: o real não está na saída nem na chegada, mas na travessia. A travessia da crônica é feita de palavras, mas também dos hiatos que as costuram.

Entre um parágrafo e outro, cabe uma vida inteira.
Entre uma frase curta e outra longa, mora a respiração de quem lê.
E entre o que se diz e o que se cala, mora a possibilidade de transformação.

Talvez seja esse o tchan da coisa: o silêncio não é ausência, é presença diferente, que se oferece para ser descoberta.

Ler uma crônica é se permitir caminhar por esse território. Não para encontrar respostas prontas, mas para experimentar perguntas novas. Sentir uma crônica é abrir-se ao impacto sutil de um detalhe: o som de um metrô, o cheiro de um café esquecido, a ir(relevância) de signos, a memória de um abraço. E escrever uma crônica é, talvez, um gesto nobre de transformação para que cada vida, com seus restos e sobras, se reinvente em palavras.

Que cada silêncio carregado possa virar história. Que cada bolso esquecido possa trazer um rascunho inesperado. E que cada leitor, ao abrir este espaço, descubra que também pode escrever — nem que seja apenas nas entrelinhas de si mesmo. Por isso escrevemos. Para tocar o invisível que insiste em habitar as entrelinhas. É nesse silêncio que a crônica se revela inteira.


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Everton Viesba

Professor, pesquisador e escritor. Doutorando em Educação (UNICID) e Mestre em Ciências (UNIFESP) com graduação em Gestão Ambiental, Letras e Ciências Biológicas. Atuo como editor, coordenador e fundador de redes e projetos como o Congresso Internacional Movimentos Docentes (CMD), o Colóquio de Educação e Sustentabilidade (COESUS) e o selo editorial V&V Editora. Desenvolvo projetos voltados à educação, formação de professores, sustentabilidade e design. Além da produção acadêmica, também me dedico à literatura e mantenho colaborações em jornais e revistas, integrando ciência, arte e educação.

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