Começou com a colher de metal, uma prateada, a única que sobrou da coleção e que fazia som de tilintar contra o copo de vidro ao mexer o Toddy — sumiu do escorredor entre o último respingar após lavada e o primeiro suspiro do dia. Eu disse “ok, acontece”. Acontece é a palavra que a gente usa quando não quer escolher culpados.

No dia seguinte, um par de meias perdeu o direito ao plural. Depois, a sombra do vaso ficou dois dedos mais estreita que o vaso. A marca do quadro permaneceu na parede, mas o quadro não. Abri o caderno com capa de papelão e escrevi: Item 1: colher de metal. A página absorveu a palavra como quem bebe água com sede antiga.

É assim que a gente se mete numa ciência doméstica. Anotei com método. Item 2: meia órfã. Item 3: sombra emagrecida do vaso. Item 4: quadro invisível. Descobri que nomear a ausência é uma forma de lhe dar documento. Descobri também outra coisa: toda anotação puxava um fio de mundo. Quanto mais eu listava, mais o mundo me obedecia por subtração.

Passaram-se três semanas e o elevador, que sempre rangia no terceiro andar, parou de reclamar. Escrevi: Item 21: ruído do elevador. O prédio respirou aliviado; eu, não. O silêncio pesa quando chega com uniforme.

A portaria avisou que alguém perdeu um guarda-chuva transparente, desses que fazem a cidade parecer aquário. Coloquei na lista: Item 27: guarda-chuva que fazia de mim peixe. À noite, choveu para dentro. Não no teto: no peito. Há precipitações que ignoram telhas.

Descobri regras: se eu escrevia a palavra com letra grande, o desaparecimento tinha solenidade; com letra miúda, sumia com vergonha. Se eu sublinhava, não voltava. Se eu usava caneta vermelha, alguma coisa aparecia no lugar — quase nunca o que foi embora. Anotei: Item 39: cheiro de manga. Em troca, o armário cheirou a vento de rodovia.

Começaram as perdas sem objeto. Item 54: a hora exata do pôr do sol da infância. Item 55: a certeza de que “amanhã” é substantivo. Item 56: o hábito de trancar a porta duas vezes. A casa aceitou as novas lacunas como quem recolhe móveis velhos na calçada: sem pergunta, com uma pena que não se confessa.

No mercado, comprei um pote de vidro para guardar parafusos. Chegando em casa, não havia pote, mas os parafusos existiam — espalhados no saco como constelações sem mapa. Anotei o pote. Anotei também: Item 63: mapa das constelações. O céu, naquela noite, me pareceu ocupado demais.

A primeira pessoa a desaparecer foi uma vizinha que eu nunca soube o nome. Ela continuava a existir, descia com o cachorro, apertava o botão do elevador, mas o nome dela entrou em greve. Eu tentava pensar “bom dia, Dona…”, e o resto caía num poço sem fundo. Escrevi no caderno: Item 71: nome da vizinha do cachorro de coleira azul. No dia seguinte, a coleira ficou cinza.

Eu testei limites. Escrevi: Item 82: conta de luz. Durante um mês, não chegou boleto. O prédio inteiro ficou feliz até a correspondência assumir vingança: a conta voltou acumulada como neve. O mundo cobra depois com juros de realidade.
Então eu escrevi: Item 90: medo. Foi a melhor semana da minha vida. Atravessei ruas sem olhar para os lados, falei alto com gente ocupada, comi mariscos mesmo sabendo da alergia. No oitavo dia, o medo voltou vestido de terno. Não veio sozinho: trouxe uma pasta com papéis que eu não lembrava ter assinado.

Em fevereiro, choveu dentro do inventário. As páginas se ondularam como se a palavra “água” tivesse cumprido o próprio verbo. Secando ao sol, notei uma falha: onde eu escrevera “março”, lia-se “rço”. A letra a evaporara. Revirei as folhas. O inventário tinha engolido todas as as. O mês virou m_rço, o v__sb_ virou sigla, meu sobrenome virou falta de ar. Descobri que as letras são espécie protegida. Anotei — Item 107: o que fazer sem a vog_l .

A segunda pessoa a desaparecer foi uma pessoa que eu amava. Não o corpo — o corpo dormia, falava, ia trabalhar, voltava. O nome é que dissolveu. Começou pela ponta: Aline. Depois, Alin. Até que restou só Ali. E, um dia, nem o traço. Eu chamava “amor”, “você”, “ei”, e ficava parecendo que abri a boca para uma música sem letra. Escrevi com medo do que eu mesmo provocava: Item 128: nome de quem dividiu a cama de solteiro. Na manhã seguinte, já não havia mais o A, nem a cama de solteiro. A palavra de cinco letras deu espaço ao vazio.

Nessa noite, o inventário ficou de castigo. Tranquei na gaveta, amarrei com fita, escrevi por fora: não abrir. Dormi com a sensação de que amarrei minha própria mão direita. Às três e dezessete, a gaveta abriu sozinha. As páginas tinham se reorganizado por conta própria, como um baralho que sabe truques. No topo, em caligrafia que não reconheci, havia uma entrada nova: Item 0: o motivo. Abaixo, uma linha vazia. Nada mais agressivo que um espaço em branco que não nos quer.

Comecei a sair de casa procurando lugares intocados: um cinema às dez da manhã, bibliotecas com carpete, lojas de moldura. Em todo lugar havia gente que também praticava a ciência dos desaparecimentos. O balconista de molduras contou que perdeu a noção de “quadro bonito”. O bibliotecário disse que, quando abre um romance, as primeiras páginas estão sempre faltando, mesmo nos livros fechados. Anotei: Item 173: começo dos romances. E minha vida passou a começar direto na crise.

Resolvi devolver coisas. Abri o caderno e acrescentei: Contra-item: colher de metal (ofereço de volta). Fiquei envergonhado do pedido piedoso. Mesmo assim, no outro dia, havia uma colher nova na gaveta, firme e limpa, exageradamente polida. Ela tilintava, mas não tinha história. O mundo aceita devoluções apenas com produtos diferentes.

Passei a testar subtilezas. Item 190: sensação de que alguém me olha quando atravesso a sala. Sumiu. Em troca, ganhei a sensação de que eu me olho quando atravesso a sala. Não é o mesmo, mas é companhia.

Uma noite, o inventário riu. Não uma risada de gente: uma risada de grampo, metálica. Eu tinha escrito: Item 204: saudade do que ainda não aconteceu. O caderno, em resposta, cresceu uma página de trás para frente, como rabo de lagartixa. Abri: Anexo: o futuro. Li e era a lista de tudo o que um dia eu perderia: primavera, ceia, joelhos sem dor, a palavra “ainda”, o som da sua chave no trinco, o queixo do meu pai, as linhas do meu mapa. Fechei o anexo. Continuei sem saber que verbo convém à perda prevista.

Comecei a desconfiar de que eu não era o autor. Havia horas em que, enquanto eu cozinhava, o inventário escrevia sozinho no balcão: Item 233: o gosto exato do suco de caju de 2012 em Natal. Item 234: a franqueza. Item 235: o atalho para chegar no Erasmo. As letras eram curvas que eu não fazia. A casa participava do crime.

Ah, um ritual: toda vez que anotava um item, deixava ao lado algo em oferta — um botão de camisa, um fio de cabelo, um grão de arroz cru. Era ridículo, mas reduziu a fome do caderno. Negociar com o abismo funciona até que o abismo aprende a moeda.

No fim de maio, acordei e não reconheci a própria mão. Eu a movia, ela obedecia, mas era uma obediência estrangeira. Escrevi: Item 261: intimidade com a mão direita. A letra saiu trêmula, como se copiada de outra pessoa. Lavei o rosto. No espelho, faltava um músculo entre o riso e o silêncio. A gente conhece até as ausências do próprio rosto. Anotei. Item 262: músculo que modula o sorriso de canto de boca. Sorri para ver se voltava. Não voltou. Eu ri sem saber do quê.

A terceira pessoa a desaparecer foi meu nome dito por mim. Quando alguém me chamava, eu virava. Eu mesmo, quando tentava me chamar, não vinha. Passei a falar comigo por apelidos de circunstância: “moço”, “fulano”, “ei”. Era tarde. O inventário já tinha me listado sem eu ver: Item 0.1: pronome que me veste.

Naquele ponto, abri mão da prudência. Escrevi com raiva: Item 300: a morte. O caderno fechou na hora, como concha. Esperei. Abri. No lugar da palavra, um espaço limpo. Como se eu tivesse limpado o chão que não pisa ninguém. Por três dias, nenhuma notícia no jornal. Nenhum velório nas duas quadras que me cercam. As redes sociais paradas num mar sem obituários. O mundo ficou de pé respirando fundo, aliviado e aflito. No quarto dia, a morte voltou com pressa. Fez plantão. Vingança de tese contrariada.

Percebi, então, com o tipo de clareza que não é luz, é corte, que o inventário não era sobre coisas. Era sobre o laço. Tudo que sumia tinha uma ponta em mim. O quadro, a sombra, a colher, os nomes, as letras — o que desaparecia era o que me costurava. Era eu, em pequenas porções remotas.

Na mesma noite, a gaveta que abrigava o caderno não estava mais lá. Um retângulo claro no lugar do móvel, poeira que lembrava uma ilha. Eu fiquei sentado diante do retângulo como quem visita ruínas. E tive um pensamento que me deu náusea de razão: e se o inventário sempre morou na parte da casa onde eu guardava o que não conto? E se o ato de escrever não cria lacuna, só revela a que já existe? E se o que some não some — apenas muda de nome?

Tentei um último truque. Escrevi numa folha solta: Contra-inventário: tudo que aparece. E anotei: o sopro que apagou a vela, o olhar do cachorro quando entende sem concordar, o chiado de rádio ruim que, de repente, sintoniza uma música exata, a palavra “ainda” resgatada das ruínas. A folha brilhou de um jeito infantil. Fiquei com vergonha de ter sido sério demais por tanto tempo.

Na manhã seguinte, o caderno abriu numa nova guia: Inventário reversível. Eu li como quem lê um manual de uso do próprio peito. Dizia assim (e eu copio com fidelidade, porque não quero ser acusado de poesia):

“O que se escreve com amor cresce borda.
O que se escreve com medo pega vento.
O que se escreve com culpa vira chave.”

Fechei. A borda do mundo ficou mais grossa, o que ajuda quando a gente precisa segurá-lo.

A quarta pessoa a desaparecer foi quem eu amava, de novo. Não o corpo. Não o nome, que já não voltara. Foi a última palavra que ela disse antes de sair do quarto pela última vez. Foi “depois eu digo”. O inventário, discreto, anotou sozinho: Item 400: promessa pobre que sustenta o coração. Passei o dia repetindo “depois” para móveis, para talheres, para a janela. À noite, voltei ao caderno com uma caneta que não falha e escrevi: Contra-item: depois. A tinta espalhou como uma mancha que aceita a culpa. Dormi de costas para o mundo que me restava.

Nos dias que seguiram, visitei lugares onde nunca fui. Havia uma loja de antiguidades que vendia retratos de gente sem nome: comprei três, escrevi nomes que não eram os deles e me senti criminoso e deus em meio expediente. Havia um quarto de hotel no centro que guardava a marca do corpo de alguém que dormiu sempre do mesmo lado: encostei a mão e o inventário vibrou no bolso como celular esquecido. Havia um cinema com três espectadores; o filme falava de inventores e eu ouvi “inventariadores”. Saí antes do fim. Há filmes que gostam de nós.

Às vezes, no meio da rua, eu enxergava a pessoa que amo vindo na minha direção e, por um segundo, o nome voltava inteiro como uma onda. Eu travava o passo para não desfazer o milagre. O milagre se desfazia sozinho, como convém. Eu anotava: Item 431: nome inteiro por um segundo. Embaixo, escrevia: Obrigada. Sim, obrigada, porque eu escrevia com a voz dela dentro de mim. A gramática se curva quando afeto muda de cadeira.

Hoje, quando abro o caderno, a primeira página se espelha. No topo, lê-se: Inventário das coisas que desaparecem. Abaixo, um descanso. Depois, linhas. Muitas. Nem todas minhas. Às vezes acordo e encontro novas entradas: Item 500: o triângulo de sol no chão às 9h14. Item 501: o susto bom ao lembrar que ainda sei assobiar. Item 502: o gosto da água da torneira da infância. Fico quieto, aceito. A casa continua o trabalho quando eu durmo. A casa me inventaria.

O último teste: escrevi num papel pequeno, dobrado em oito, e deixei sob o caderno: Item final: eu. Coloquei uma pedrinha em cima. Fui lavar a louça, varrer migalhas, abrir a janela. Voltei. O papel seguia lá. Abri. A palavra não estava. No lugar, havia outra: nós.

Não sei quem editou. Não sei desde quando somos plural. Só sei que a colher de metal voltou, com um arranhão. A sombra do vaso recuperou largura. O quadro reapareceu do avesso — a madeira atrás, o prego tímido. O elevador voltou a ranger só o suficiente para eu saber que a máquina tem nervos. O nome da vizinha continua teimoso, mas o cachorro me cumprimenta com cauda específica. O “depois” não é promessa, é ponte curta.

Às vezes, a casa me presenteia com pequenos aparecimentos: o cheiro de manga uma hora antes da fruta, o retrato da minha mãe numa caixa que eu já tinha revirado, um parafuso em lugar improvável, como estrela caída no batente. Eu anoto no contra-inventário com letra grande, para que fique. Escrevo: fica. E, quando não fica, eu leio de novo. Releitura é um tipo de martelo que prega o que insiste em soltar.

Se você chegou até aqui, faça o teste: nomeie em voz alta agora o objeto mais simples que te rodeia. Diga “cadeira”. Diga “xícara”. Diga “ar”. Observe o modo como a coisa se firma um pouco mais quando recebe atenção. Depois, sussurre uma falta. “Ainda.” “Nós.” “Casa.” Veja o que responde. Às vezes, o mundo só quer ser chamado pelo apelido certo.

No rodapé da última página, há uma nota que não escrevi: “Toda ausência é uma forma de presença que ainda não aprendeu o nosso nome.” Fecho o caderno devagar, como quem fecha uma janela para que a noite não leve mais do que o combinado. E durmo com a certeza humilde de que amanhã, ao abrir, o inventário me dirá o que se foi, o que voltou e onde, entre uma coisa e outra, eu continuo aparecendo.


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Everton Viesba

Professor, pesquisador e escritor. Doutorando em Educação (UNICID) e Mestre em Ciências (UNIFESP) com graduação em Gestão Ambiental, Letras e Ciências Biológicas. Atuo como editor, coordenador e fundador de redes e projetos como o Congresso Internacional Movimentos Docentes (CMD), o Colóquio de Educação e Sustentabilidade (COESUS) e o selo editorial V&V Editora. Desenvolvo projetos voltados à educação, formação de professores, sustentabilidade e design. Além da produção acadêmica, também me dedico à literatura e mantenho colaborações em jornais e revistas, integrando ciência, arte e educação.

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